quarta-feira, 25 de março de 2009

TV experimental tupiniquim

Ontem fui almoçar no restaurante em frente à empresa. Como de rotina, cumprimentei os funcionários, fiz meu prato, e sentei. Enquanto tirava os talheres do saquinho plástico, olhei para TV, de reflexo, e parei por um instante.

A tela exibia uma mulher de longos cabelos pretos sentada, lendo um livro de capa azul. A cena é mostrada pela mesma câmera por um longo tempo antes de ser cortada para uma outra que, por sua vez, também demoraria a ser substituída por um novo ângulo. O silêncio é constante na transmissão.

A essa altura já havia esquecido do meu prato. Fiquei mesmerizado, tentando entender o que via. Seria uma nova forma de teledramaturgia? Um comercial modernoso? Talvez uma campanha em prol da leitura!

Em meio a esses devaneios a cena é substituída.

Desta vez, um homem está deitado e dormindo. O enquadramento mostra apenas seu braço sobre os olhos, em defesa contra a claridade do quarto. Aos poucos a tomada vai se abrindo e revela um pesado cobertor, paredes revestidas com motivos de gosto duvidoso, uma série de espelhos e, por fim, outra cama, onde dorme uma mulher.

A câmera gira - o silêncio ainda é absoluto - e revela mais camas, com outras pessoas dormindo.

"Será uma república estudantil? Uma casa de praia? Um albergue?", me pergunto.

Novamete, em meio a minhas ponderações, a imagem escurece, mas dessa vez é o intervalo. Assim, volto ao meu prato, já tendo esquecido daquilo que vira até o fim da refeição.

E esquecido permaneceria, se não fosse almoçar lá novamente hoje, no mesmo horário, na mesma mesa, defronte à mesma TV.

Mais uma vez sou traído pelo reflexo e olho para o aparelho. Para minha surpresa, a temática do dia anterior parece se repetir, embora não as mesmas situações.

Hoje não há uma mulher de longos cabelos pretos sentada e lendo, mas um homem loiro em pé, preparando o que julguei ser um suco de laranja. Não posso dizer se era o mesmo que estava dormindo ontem.

Fico imaginando se aquilo seria um contraste proposital. Algum tipo de antítese de gênero e posição deliberadamente inserida. Não tenho como confirmar, por isso sigo assistindo.

O registro da obtenção do suco é feito ao longo de um tempo que julgo ser de minutos, capturado por várias câmeras que vão se alternando sem um padrão perceptível. O ponto de vista vai se movendo, abre e fecha, muda da frente para o lado, do lado para cima e, novamente, para a frente, até que, por fim, a tarefa é concluída, o homem sorri e a imagem escurece.

Estou paralisado.

O que raios quer dizer aquilo?! Que tipo de subtexto estaria cifrado naquelas imagens? Haverá alguma mensagem de vital importância escondida, colocada ali para que algum sagaz telespectador a desvende?

Pior! Seria eu o responsável por aquilo? Tendo repetido as mesmas condições do dia anterior haveria repetido também algum tipo de conjunção mística entre eu, o restaurante, a mesa e a TV, de forma a interferir em sua programação?

Não acredito nessas coisas, por isso tal teoria é logo descartada, ao mesmo tempo em que uma nova se forma: é algum tipo de experiência para promover a criação de uma nova linguagem televisiva!

Isso me traz à mente o clássico (e um tanto folclórico) filme mudo experimental soviético "Um homem com uma câmera", de 1929, do diretor Dziga Vertov, em que o cineasta registra cenas cotidianas de cidades daquele país. Sem roteiro, sem intertítulos, sem atuação e sem cenários definidos.

Começo a me empolgar com a idéia de que, finalmente, a enfadonha e repetitiva mídia televisiva foi buscar algo diferente justamente no obscuro e curioso cinema experimental soviético. Penso que talvez seja o prenúncio de uma nova era de experimentação na TV brasileira quando meu pai se aproxima e senta, já falando: "Esse Big Brother é muito chato mesmo. A mesma coisa todo ano."

Concordo de imediato, levando a comida à boca em seguida - mas sem deixar de registrar a nota mental de que preciso assistir "O Encouraçado Potenkim" novamente e, por via das dúvidas, da próxima vez que for ao restaurante vou almoçar um pouco mais cedo, em outra mesa e de costas para a televisão.

4 comentários :

Kildare disse...

Ate parece que você não sabia que era o Big Brother...

Khristofferson Silveira disse...

Tolo...

Hahaha

Israel disse...

Ufa... Eu já estava lendo o texto matutando se iria usar novamente a famosa interrogação do Jupará ou a frase "Too cult for a geek"... Mas aí vi que o texto tava elaborado demais pra ser sério... hahahahahaha

Khristofferson Silveira disse...

(O que será que ele quis dizer com isso?)

Hahaha