terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Café da manhã em Plutão

Uma gota de suor escorre pela sobrancelha direita. Busca o lenço branco no bolso e passa por todo o rosto, enxugando a pele que logo voltará a ficar úmida - uma resposta natural ao forte calor, típico do local onde está.

Guarda o lenço no mesmo bolso enquanto adentra a cozinha. Busca a garrafa de café e a coloca sobre a mesa. Faz o mesmo com o leite em pó, a colher de café, a pequena xícara azul e um pedaço de pão. Afasta a pesada cadeira de madeira da mesa e senta-se.

Retira a tampa e desenrosca a boca da garrafa. Serve a si mesmo uma modesta dose de café, deixando espaço para o leite, que vem em seguida, em três pequenas colheradas. Só então completa o resto do recipiente com o líquido preto. Mexe e prova. Ao contrário dos dias anteriores, está sem açúcar.

Levanta-se e, com apenas um passo, alcança o armário onde está o adoçante. Pega-o e dá bom dia a um passante. Torna a sentar-se e começa a adicionar com parcimônia ao líquido agora marrom as doces gotas incolores, contando cada uma delas como um relógio conta os segundo. Lembra da época em que a simples menção a café com adoçante era suficiente para causar uma revolta sem igual. Não que tenha passado a gostar magicamente, mas achou por bem cortar mais essa dose de glicose do cotidiano.

Prova novamente. Claro que não se compara aos que bebera nos dias anteriores, mas já se conformou com isso há tempos, de forma que esse é apenas mais um café que entra para o rol dos rotulados como "aceitável".

Enrosca novamente a boca da garrafa, coloca a tampa, pega um pedaço do pão e começa a mastigar. Bebe o café e olha para a curta faixa de céu acima do telhado do vizinho, visível pela janela à sua frente. Pensa em uma música qualquer enquanto toma outro gole e come mais um pedaço do pão.

Eis que, afinal, aquele inexorável turbilhão de devaneios finalmente chega. Se vem convidado pela cafeína, aproveitando o raro momento de silêncio do lugar e pegando carona no sentimento de distância e descontexto que confluíram naquele momento, ele não sabe. Mas ali está, remanescente da fina lâmina de café no fim da xícara e sobrevivente à sua extinção.

Começa, então, a preparar outra dose, igual à anterior. Repete o ritual da garrafa, do leite, do adoçante e mergulha nela e em suas elucubrações. Pensa no que foi, no que é, no que será, no que seria, no que poderia, no que poderá, no que não foi, no que não é, no que não será, no que não seria, no que não poderia, no que não poderá e em todas as variações temporais e condicionais que consegue imaginar.

A cabeça baixa posiciona os olhos de maneira que eles miram o recipiente azul. Lembra-se de algumas histórias que passaram por esses mesmos olhos antes, seja em filmes, séries ou livros, mas que, de repente, parecem fazer mais sentido agora do que das outras vezes. Relembra o adágio de que "a ignorância é uma bênção". Discorda, mas deixa escapar um inconsciente riso no canto da boca.

A segunda dose encerra-se após alguns longos minutos, mas ainda não é suficiente. Prepara a terceira, repetindo religiosamente os passos anteriores apenas para perde-se em novos devaneios.

Eles o levam para longe... Para muito longe... Vê, então, os objetos à sua frente sumindo, as paredes se afastando, o ambiente se abrindo e escurecendo paulatinamente. De repente, o céu não é mais azul, mas negro como o canto mais escuro do cosmos. Olha para cima e em meios às estrelas do céu, três pontos brilham mais forte. Logo percebe que deixara a Terra e se encontrava em algum gélido ponto do espaço.

Termina de tomar o café, levanta-se e vai caminhar sozinho no planetóide, sumindo no frio deserto escuro enquanto, sem que ele saiba, a voz de Rod Serling faz o tradicional comentário que finaliza todos os episódios de "Além da imaginação".

O caminhante pára. Jura ter ouvido à distância o fascinante e incômodo tema do seriado. Dá de ombros e segue.

4 comentários :

Raquel disse...

Por deus, vou fazer uma ação entre amigos e te dar uma passagem de volta. Lembre-se do surto da Adriana Calcanhoto!

Fora isso, muito bom. Deu pra sentir a LERDEZA do lugar e a RAPIDEZ dos devaneios daqui. :D

Khristofferson Silveira disse...

Nem fala. Vai que o Serginho Groisman resolve me convidar pra falar dos surtos no programa dele.

Mas fico satisfeito por conseguir transmitir os sentimentos e contrastes. :D

Israel disse...

Muito bom Khris ! Ótimo texto.

Baseado em fatos ? rsrsrsrs
Agora q vc é quase um ermitão... hehehe

Khristofferson Silveira disse...

Hahaha Valeu. Esse é inspirado em eventos reais sim.