sábado, 17 de janeiro de 2009

Thomas Mann: "Morte em Veneza"

Aschenbach observa Tadzio e sua família

"Não estava escrito que o sol desvia nossa atenção do intelectual para o sensível? Que ele entorpece e enfeitiça a razão e a memória de tal modo que a alma, entregue ao prazer, esquece inteiramente sua verdadeira condição e se apega surpresa e maravilhada ao mais belo dos objetos iluminados por ele?"

Aproveitei que passaria um dia de folga em casa esta semana para ler algo. Como queria acabar rápido, preferi pegar um livro curto. Dei uma vasculhada na estante e "Morte em Veneza", do alemão Thomas Mann, me pareceu adequado.

Na história, Gustave Aschenbach, um famoso autor alemão, decide passar as férias de verão em Veneza. Lá, apaixona-se por Tadzio, um adolescente de 14 anos visto por ele como a representação perfeita da beleza e da inocência. A paixão vai lentamente dissolvendo a racionalidade de Aschenbach, que via no jovem a encarnação do sentido de beleza que ele buscara na arte.

O enredo é simples e sem grandes supresas, até porque esse não é o objetivo do livro, que foca nas reflexões do personagem principal. Elas são longas, intrincadas, cheias de referências aos mitos gregos e abertas a muitas interpretações. Ou seja, o meu plano de ler algo rápido foi por água abaixo.

Essa é uma obra densa, mas muito bem estruturada. A forma como Mann usa os comentários sobre as obras de Aschenbach no segundo capítulo, por exemplo, nos faz ter acesso a certos aspectos da pisque do personagem que servirão de subsídios para contextualizar suas reflexões nos capítulos seguintes.

A despeito de discussões sobre Aschenbach ser homossexual, pedófilo - basta atentar para as alegorias colocadas no texto para ter uma noção disso -, ou estar unicamente encantando e absorto pela beleza do jovem polonês, o que me chamou a atenção foi o efeito que ele acaba tendo sobre o artista.

O personagem, que sempre prezara pela disciplina, de repente começa a mudar de tal maneira que só pode ser explicada por uma de suas reflexões, quando diz que "a paixão paralisa o senso crítico e deixa-se envolver a sério em encantos que a sobriedade aceitaria humoristicamente ou rejeitaria com irritação."

No fim das contas, "Morte em Veneza" é um livro sobre os estranhos caminhos que os verdadeiros artistas trilham em busca da perfeição; sobre como uma obsessão pode transformar suas vítimas naquilo que mais odeiam; e sobre como o encantamento por uma pessoa pode ofuscar o discernimento e afetar o julgamento de um indivíduo.

Sem dúvidas, um livro lido em boa hora.

7 comentários :

Raquel disse...

meu progresso = zero

Khristofferson Silveira disse...

Mas vai chegar a 100 antes do que imagina :)

Israel disse...

Sinto muito Khris, seu review é poético e técnico, mas o meu é simples e objetivo (review do review):

O cara é gay e pedófilo... É o pior dos gays... rsrsrsrs
Como se isso não bastasse ainda pode ser xingado de viado por outros pedófilos !

Khristofferson Silveira disse...

Técnicas massadianas de review. Hahahaha

Israel disse...

HAHAHAHAHA !!! Pode crer !
Convenhamos q dá muito menos trabalho fazer review de review de livros q vc sabe q não vai ler... hehehe

jardel disse...

o livro de thomas mann trata da crise da identidade moderna diante da desilusão com a tradição do belo platônico. apenas isso, os persoagens são alegóricos. não há nada de homossexual ou pedofilo no romance. o conceito de belo grego é o corpo masculino adolescente. ele é apresentado na forma do personagem adolescente. é o belo ideal que a cultura européia elegeu como represeante máximo de seus ideais e que numa sociedade corroída (simbolicamente veneza com peste) mat ao personagem.

Khristofferson Silveira disse...

Há quem diga que é uma alegoria para a atração que a Alemanha vinha sentindo por aquilo que seria sua grande desgraça: a guerra.

Sua interpretação é muito válida e o bacana de livros como esse são as margens que eles abrem para boas conclusões como essa que deu.

Obrigado pelo comentário.