sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Joe Sacco: guerra e jornalismo em quadrinhos

Foto de Joe Sacco
A situação no Oriente Médio me fez dar uma remexida na estante em busca de duas graphic novels que li há alguns anos: "Palestina - Uma nação ocupada" e "Palestina - Na Faixa de Gaza", ambas de Joe Sacco, um repórter e quadrinista maltês criado na Austrália e graduado em jornalismo nos EUA, pela Universidade do Oregon.

Conheci o trabalho de Sacco lá pelos idos de 2002, enquanto pesquisava material relativo aos conflitos nos Bálcãs, originários do esfacelamento da antiga Iugoslávia - "um país europeu onde muitos tiveram que se agüentar para a felicidade de poucos", como bem define a Desciclopédia. A obra, "Área de Segurança Gorazde", retrata histórias de pessoas que estavam em meio à Guerra na Bósnia (1992 a 1995).

O autor une sua atividade como jornalista à sua habilidade como desenhista para registrar a realidade das vítimas de um conflito que resultaria no maior genocídio europeu pós-Holocausto, em Srebrenica. Este trabalho originou uma obra real, cruel e emocionante.

Sua auto-ironia característica, tanto nas palavras quanto no traço de si mesmo, serve como alívio cômico em meio a todo aquele caos e histórias chocantes que, não raro, marejam a vista do leitor.

Gorazde foi um cenário ímpar no teatro daquela guerra. Sua localização, na parte oriental do país, era exatamente onde os sérvios (cristãos ortodoxos) promoviam uma limpeza étnica contra os bósnios (muçulmanos). Assim como Srebrenica, transformou-se em um enclave, uma área de segurança da ONU, mas, ao contrário daquela cidade, acabou sobrevivendo aos ataques.

Sacco esteve na região quatro vezes entre 1995 e 1996, entrevistando, anotando e fotografando as histórias e pessoas que fariam parte da obra. Mas, antes disso, em 1991 e 1992, ele esteve dentro de outro barril de pólvora: Palestina. Essa viagem originou as duas graphic novels que citei no início do post.

Família palestina em cena da obra de Joe SaccoNesses livros-reportagem conhecemos a história de pessoas cujas vidas foram profundamente afetadas pela ocupação do seu território, tendo sido expulsas de suas terras e entregues ao descaso e à agonia de ver familiares mortos ou presos sem explicação.

O sentimento de opressão vivido por aquele povo é uma constante na obra. De certa forma, o autor nos permite entender o contexto que levou ao levante palestino contra Israel - que ficou conhecido como a Primeira Intifada.

É interessante lembrar que o primeiro volume foi lançado no Brasil em 2001 e o segundo, em 2003. Ambos no calor da Segunda Intifada, que dura até hoje.

No fim das contas, a época em que as histórias foram registradas, aquela em que foram lançadas aqui e a atual não diferem muito. A desproporcionalidade de força usada pelos dois lados ainda é explícita - seja nas pedras atiradas contra os tanques naquela época, ou hoje, nos ataques aéreos que destroem quarteirões e matam militantes e civis indiscriminadamente para responder aos mísseis Qassam.

Além desses trabalhos, outros foram publicados no Brasil, sempre pela Conrad: "Uma história de Sarajevo", que mostra seu retorno à cidade após a queda de Milosevic e usa as histórias de um ex-combatente como fio condutor, e "Derrotista", que não foca em um tema específico, mas perpassa histórias cômicas pessoais, relatos de bombardeios da Segunda Guerra feitos por sua mãe e bastidores da cobertura da Guerra do Golfo.

Cena da obra Palestina, de Joe Sacco, com árabes e judeus em mercadoDefinitivamene, Joe Sacco é um dos grandes nomes do jornalismo em quadrinhos e merece ser lido por quem se interessa por qualquer uma dessas áreas ou pelos temas abordados. É uma narrativa diferente daquela a que estamos acostumados, com traços bem particulares que cativam o leitor logo de cara.

Para finalizar, sugiro uma leitura na amostra de "Palestina - Uma nação ocupada" disponibilizada no site da editora. São vinte páginas que dão o tom da obra.

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