segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Filmes da semana (18 a 24/01/2009)

A Intérprete (The Interpreter, 2005) - 2/5
Dirigido por Sydney Pollack. Com Nicole Kidman, Sean Penn, Catherine Keener.
Após ouvir uma ameaça a um chefe de estado africano, dita em um raro dialeto, a intérprete da ONU Silvia Broome (Nicole Kidman) se envolve acidentalmente em uma conspiração e tem sua vida ameaçada. Designado para investigar o caso, o agente do Serviço Secreto Tobin Keller (Sean Penn) suspeita dela e resolve investigar seu passado e seus relacionamentos com o político ameaçado.

O argumento do filme é promissor, mas se perde no ritmo arrastado com que é conduzido. A lenta construção tanto da conspiração quanto dos personagens é incômoda. O Sean Penn interpreta um papel que acaba não demostrando toda o talento dele e a Nicole Kidman é uma presença encantadora que não transmite toda emoção que a personagem teria. A idéia que tenho é que o filme poderia ter acabado uns quarenta minutos antes e nos poupar da embromação.


Trovão Tropical (Tropic Thunder, 2008) - 4/5
Dirigido por Ben Stiller. Com Ben Stiller, Jack Black, Robert Downey Jr., Nick Nolte, Matthew McConaughey, Tom Cruise.
Depois que custos elevados e egos inflados ameaçam acabar com a produção do maior filme de guerra da história, o frustrado diretor do projeto se recusa a parar de gravar, levando seu elenco para dentro da selva do sudeste asiático em busca de mais realismo.

As primeiras reações que me chegaram quando esse título foi lançado eram negativas e diziam respeito, principalmente, às piadas sobre pessoas com deficiência intelectual. As seguintes eram exaltações à sua qualidade e comicidade. Acabei ficando curioso para conferir por conta própria e posso dizer que o resultado é uma das melhores comédias dos últimos anos. A sátira que se faz do universo de absurdos que é a indústria cinematográfica é impagável. Seja com a apresentação das curiosas relações que se estabelecem durante as gravações (ator-ator, ator-diretor, diretor-produtor, diretor-roteirista), dos famosos atores estereotipados ou dos absurdos que se passam nos bastidores, tudo ali é para cutucar Hollywood. Inclusive as tão comentadas piadas sobre deficientes intelectuais não eram piadas sobre esses indivíduos, mas sim sobre o péssimo trabalho que os atores fazem ao representá-los. A graça não estava na deficiência em si, mas sim na tentativa infrutífera de um péssimo ator em representá-la de forma apropriada. Minha sugestão é que veja e tire suas próprias conclusões.


Maratona da Morte (Marathon Man, 1976) - 4/5
Dirigido por John Schlesinger. Com Dustin Hoffman, Laurence Olivier, Roy Scheider, William Devane.
O estudante de História e maratonista amador Thomas "Babe" Levy (Dustin Hoffman) vive atormentado com o suicídio do seu pai, perseguido pelo macartismo décadas antes. Seu caminho cruzará o do Dr. Christian Szell (Laurence Olivier), um médico nazista que vive refugiado no Paraguai e controla uma rota de contrabando de diamantes para fora dos Estados Unidos, apoiado por uma organização secreta do governo, na qual trabalha o irmão de Babe, Henry "Doc" Levy (Roy Scheider).

Já peguei várias partes desse filme passando na TV, mas nunca o havia assistido todo. Consegui ver de ponta a ponta essa semana e o resultado não decepcionou: é um excelente thriller. A obra prende a atenção pela trama bem construída e pela atmosfera criada, que faz bom uso de sombras nas cenas noturnas e cinza nas diurnas, diálogos curtos interrompendo longos silêncios e uma constante insegurança, demonstrada em ataques surpresas que criam e tensão e cujo ápice é a angustiante e memorável cena de tortura - que vai me manter afastado dos consultórios dentários por uns tempos.


Força policial (Pride and Glory, 2008) - 4/5
Dirigido por Gavin O'Connor. Com Colin Farrell, Edward Norton, Jon Voight, Noah Emmerich.
A família Tierney é uma dinastia de oficiais, começando pelo patriarca Francis (Jon Voight), passando pelos filhos Francis Jr. (Noah Emmerich), Ray (Edward Norton) e chegando ao genro Jimmy Egan (Colin Farrell). Para eles, o código não tem apenas a ver com trabalho, mas sim com família. Quando uma batida de rotina em um ponto de drogas dá terrivelmente errado, um escândalo de corrupção na polícia acaba se tornando a principal manchete dos jornais. Nomeado investigador do caso, Ray descobre mais do que gostaria, quando percebe que o rastro do crime aponta direto para sua própria casa.

Fui assistir esse daqui sem saber do que se tratava e fui pego por uma ótima surpresa. A trama em que os personagens se envolvem é muito mais familiar do que profissional e elas irão balançar as fundações daquele lar feliz. O que me surpreendeu aqui foi como a câmera nos coloca como um observador quase que em primeira pessoa em muitas das cenas. Várias vezes me lembrei daqueles programas de TV em que a equipe acompanha o trabalho policial, porque pegamos carona no banco de trás dos carros, entramos no elevador, subimos escadas junto com a equipe tática e a câmera constantemente treme e nos dá a idéia de realmente estarmos lá. No quesito atuação, John Voight e Collin Farrel trabalham muito bem, mas o show aqui fica a cargo do sempre competente Edward Norton.


O assassinato de Richard Nixon (The Assassination of Richard Nixon, 2004) - 4/5
Dirigido por Niels Mueller. Com Sean Penn, Naomi Watts, Don Cheadle.
Samuel J. Bicke (Sean Penn) é um perturbado vendedor de móveis de escritório que, em 1972, concebeu um plano para matar o então presidente Richard Nixon. Enquanto seu mundo vai por água abaixo entre divórcios e probelmas no trabalho, ele fantasia que o presidente é seu verdadeiro inimigo. A história de um piloto de helicóptero que conseguiu pousar na Casa Branca lhe dá a idéia de sequestrar um avião para executar seu plano. História inspirada em fatos reais.

A atmosfera dessa película é desoladora. Assistir a queda do personagem é muito triste, mas ao mesmo tempo, fascinante. Tudo por causa da grande atuação de Sean Penn, que conseguiu dar personalidade e alma a Samuel Bicke. Acompanhando sua chegada ao fundo do poço, bem como a cadeia de eventos e pensamentos que o envolvem e como o ator conseguiu expressar isso de forma extraordinária não há como não sentir empatia por ele até mesmo no final, quando ele executa seu plano. O grande mérito desse filme está nisso.


Truck (Teu-reok, 2008) - 2/5
Dirigido por Hyeong-jin Kwon. Com Jin Goo, Yoo Hae-jin, Kim Joon-Bae, Lee Chae-young, Lee Joon Ha.
O caminhoneiro Cheol-min trabalha duro para dar o melhor para sua filha, que sofre de uma doença cardíaca e precisa ser submetida a cirurgia. Para salvá-la, ele precisará levantar urgentemente um quantia absurda, razão pela qual ele acaba se envolvendo com uma perigosa gangue de jogatinas ilegais. Obrigado a fazer um trabalho para ela, sua vida sofrerá mais uma reviravolta quando encontra uma van da polícia acidentada na estrada. E aquilo que já estava complicado toma um rumo ainda pior.

Um suspense coreano com uma trama razoável e atuações aceitáveis, mas que não prende e nem empolga, por isso acaba não merecendo grande destaque. A história é simples e previsível e a linguagem não apresenta nada de chamativo. Ou seja: entretém, mas não chega a ser memorável. O divertido acaba sendo pescar referências a outros filmes, como "Laranja Mecânica" e "A Morte Pede Carona", por exemplo.


Agente 86 (Get Smart, 2008) - 3/5
Dirigido por Peter Segal. Com Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson.
Quando o quartel-general do "Controle" é atacado e a identidade de seus agentes fica comprometida, o Chefe (Alan Arkin) não tem outra saída senão promover Maxwell Smart (Steve Carell) a Agente 86. Mas, ao invés de trabalhar com o Agente 23 (Dwayne "The Rock" Johnson), como gostaria, sua dupla acaba sendo a única agente cuja identidade não foi descoberta: a bela e mortal veterana Agente 99 (Anne Hathaway).

Taí um filme que promete o que cumpre: ser divertido. Não é uma comédia de gargalhar ou um filme de tiros e explosões gratuitos, mas um meio termo disso. As cenas de ação surpreendem pela qualidade e aquele humor trapalhão com cara séria dão o tom da obra. Steve Carell está excelente no personagem - que é um pouco menos bobo e atrapalhado que o da série -, assim como a belíssima Anne Hathaway. O ponto fraco aqui é a história, que é bem simples e pouco trabalhada, abrindo espaço para as cômicas situações em que os personagens se colocam.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Conan faz um pedido a Crom


Crom, I have never prayed to you before. I have no tongue for it. No one, not even you, will remember if we were good men or bad. Why we fought, or why we died. All that matters is that two stood against many. That's what's important! Valor pleases you, Crom... So grant me one request. Grant me revenge! And if you do not listen, then to HELL with you!
Provavelmente, a oração mais badass do cinema.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O oba-oba do Obama

Cartaz da campanha de ObamaEu sei, eu sei... É chato chegar no meio da festa reclamar de como tá todo mundo alegre - parece coisa de velho rabugento. Mas, eu sou um tanto desconfiado com certas coisas, sabe? Talvez seja algo que guardei dos anos que morei em Minas.

Acontece que esse papo todo de esperança e de mudança é muito lindo, é muito legal, mas - apelando para uma metáfora futebolística - uma coisa é a coletiva de imprensa e outra são os 90 minutos dentro das quatro linhas.

Agora que exorcizaram o Salão Oval e desenterraram a caveira de burro que estava lá, o novo ocupante pode começar seu governo com um apoio geral nunca antes visto na hitória daquele país. E ainda terá os tradicionais 100 dias de graça em que não deve apanhar quase nada da Imprensa em geral.

Vamos ver se depois disso o encantamento passa e passemos a ter uma cobertura jornalística menos apaixonada e mais... Jornalística.

Não me entenda mal. Não tenho nada contra ele. Aliás, muito pelo contrário, estou na torcida para que o cara bote as coisas nos trilhos novamente. Só que eu sempre suspeito muito desses salvadores da pátria que aparecem por aí. Ainda mais quando eles tem a seu dispor uma excelente equipe de marketing.

Algo que ajuda a ilustar o que penso é um trecho de um post que vi hoje no blog do Seth Godin:

The magical thing about selling hope is that it makes everything else work better, every day get better, every project work better, every relationship feel better. If you can actually deliver on the hope you sell, there will be a line out the door.

Hope cures cynicism. Hope increases productivity. Hope needs no justification.

E não tive como me lembrar de uma fala do Arquiteto, dita enquanto conversava com outro messias:

Hope... It is the quintessential human delusion. Simultaneously the source of your greatest strength, and your greatest weakness.

No fim das contas, quero dizer que espero apenas que aquilo que se vende como uma nova esperança não termine sendo uma grande decepção como A Vingança dos Sith. Guadadas as devidas proporções, por favor.

Legião Urbana - Tempo Perdido

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Filmes da semana (11 a 17/01/2009)

RocknRolla - A grande roubada (RocknRolla, 2008) - 4/5
Dirigido por Guy Ritchie. Com Gemma Arterton, Gerard Butler, Idris Elba, Tom Hardy, Toby Kebbell, Mark Strong. A chegada de um bilionário russo a Londres desperta a cobiça dos criminosos locais pelas altas somas envolvidas em suas negociações ilegais. Da ralé aos senhores do crime da cidade, passando por sua própria contadora e por um astro do rock que fingiu sua morte, todos querem a chance de enriquecer facilmente.

Aguardava ansiosamente esse filme, porque é o Guy Ritchie fazendo aquilo que sabe: filme sobre criminosos ingleses. A trama, como era de se esperar, é enrolada e cheia de personagens curiosos. Contudo, o ritmo rápido que esperava ver, característica de outros trabalhos como "Snatch - Porcos e diamantes" e "Jogos, trapaças e dois canos fumegantes", não aparece aqui. Isso me incomodou um pouco, porque é muita história e muito personagem pra ficar desenvolvendo devagar. O mesmo vale para o arsenal de tiradas e frases de efeito dos outros trabalhos, que deram uma encolhida aqui. No fim das contas, quem esperava uma repetição completa dos trabalhos anteriores se deparou com uma nova roupagem que pode não ser tão memorável como aqueles, mas que também agrada. Em todo caso, como será uma trilogia, muita coisa ainda está por vir.


Busca Implacável (Taken, 2008) - 4/5
Dirigido por Pierre Morel. Com Liam Neeson, Maggie Grace, Famke Janssen. O ex-espião Bryan Mills (Liam Neeson) é obrigado a fazer uso de suas velhas habilidades para resgatar a filha adolescente (Maggie Grace), raptada por uma rede de tráfego internacional de mulheres.

Assisti esse por recomendação do meu irmão e - caramba! - é muito bom. Pra se ter noção: é como se os caras tivessem raptado a Kim Bauer, filha do Jack Bauer, e ele fosse lá buscá-la. O Liam Neeson mais uma vez manda muito bem. As cenas de luta convencem e impressionam pela secura dos golpes. Resumindo: ele bate doído! A trama é simples, mas bem resolvida. Alguns detalhes aqui e ali ficam meio soltos, mas talvez porque o foco do roteiro esteja no relacionamento pai-filha. Enfim... É divertido, é empolgante e tem aquilo que todo mundo gosta, mas nem todos admitem: mocinho dando cabo dos bandidos.


Vicky Cristina Barcelona (2008) - 4/5
Dirigido por Woody Allen. Com Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Penélope Cruz. Duas amigas (Rebecca Hall e Scarlett Johansson) com visões bem diferentes sobre o amor vão passar o verão na espanha e se apaixonam por um pintor (Javier Bardem) que acabara de sair de um casamento tumultuado com uma mulher instável (Penélope Cruz).

Confesso que nunca fui grande fã do Woody Allen, mas gostei do resultado desse trabalho. As ótimas interpretações do quarteto, a curiosa história, a ambientação e a trilha sonora baseada em uma encantadora guitarra espanhola tornam esse um belo filme, que, ao contrário do que alguns possam imaginar, não se resume à cena do beijo da Scarlett Johansson e da Penélope Cruz.


Ensaio sobre a cegueira (Blindness, 2008) - 5/5
Dirigido por Fernando Meirelles. Com Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover, Gael García Bernal. Pessoas começam a ser afetadas por uma estranha "cegueira branca" contagiosa. Acuado, o governo as confina em uma instalação de quarentena e ali, ignoradas pelo resto do mundo, elas precisarão encontrar um meio de se organizar para sobreviverem. Entre os primeiros a chegar estão um médico (Mark Ruffalo) e sua esposa (Juliane Moore), que, mesmo enxergando, não quis abandonar o marido.

Assistir o título aí de cima e depois encarar esse foi um baita contraste. O filme do Fernando Meirelles é visceral. É uma porrada! O ambiente escatológico e nojento em que os doentes foram confinados é bastante incômodo. No desenrolar da história o que se vê são ações e comportamentos que a gente julga como desumano, mas que, no fim das contas, acaba percebendo que fazem parte daquilo que é, de fato, humano. Por mais que nos façamos de cegos para isso.


Casa dos loucos (Dom durakov, 2002) - 3/5
Dirigido por Andrei Konchalovsky. Com Yuliya Vysotskaya, Yevgeni Mironov, Sultan Islamov, Bryan Adams. Em 1996, durante a guerra na Chechênia, um hospital psiquiátrico é ameaçado pela invasão das tropas de ambos os lados. Ali, Zhanna (Yuliya Vysotskaya), uma jovem paciente, se apaixona por Ahrmed (Sultan Islamov), um soldado checheno, e se vê na dúvida entre abandonar ou não seus amigos e seu compromisso de casamento com Bryan Adams (o próprio!). Baseado em uma história real.

Talvez esse seja o primeiro filme que eu assisti a mostrar a guerra sob o ponto de vista dos loucos. Aí entram todas aquelas reflexões sobre quem é mais insano: a galeria bizarra de internos do hospício ou os combatentes de ambos os lados do conflito? A triste atmosfera cinza-azulado está sempre lá e só abre espaço para uma luz quente e alegre quando entramos nas fantasias de Zhanna com o Bryan Adams. Aliás, a participação inusitada dele é muito desconexa da realidade e não há como não rir da situação.


Monday (2000) - 4/5
Dirigido por Hiroyuki Tanaka. Com Shin'ichi Tsutsumi, Yasuko Matsuyuki, Akira Yamamoto. Koichi Takagi (Shin'ichi Tsutsumi) acorda em um quarto de hotel sem ter a mínima idéia de como foi parar lá. Aos poucos começa a se lembrar da cadeia de eventos que o levaram até ali: um funeral, encontro com a namorada, bar, yakuzas e uma escopeta... Mas ainda não acabou.

Uma hilariante comédia de absurdos japonesa. As enrascadas em que o personagem principal se metem beiram o surreal. É ligar o módulo de suspensão da realidade e embarcar na inesquecível noitada desse sujeito. O filme peca por ser previsível em vários pontos, mas nem por isso deixou de me agradar. Só de ver as caras que o Takagi faz já dá vontade de rir. E o final coroa todos os absurdos do filme.


Vital (2004) - 2/5
Dirigido por Shinya Tsukamoto. Com Tadanobu Asano, Nami Tsukamoto, Kazuyoshi Kushida, Jun Kunimura. O jovem Hiroshi Takagi (Tadanobu Asano) sofre amnésia traumática depois de um acidente de automóvel que tirou a vida de sua namorada (Nami Tsukamoto). Ao retomar seus estudos de Medicina, disseca o corpo tatuado de uma mulher e encontra a memória de seu amor perdido neste cadáver.

A sinopse parece bastante bizarra, mas o filme não chega a tanto. De fato a produção é de clima sombrio, com várias cenas de dissecação - mas nada muito gore - e uma trama simples, mas curiosa. O problema é que esses elementos não reagem bem na química do filme. À exceção da ótima atuação de Asano como o soturno e perturbado Takagi, essa obra não me cativou.


Blácula (Blacula, 1972) - 1/5
Dirigido por William Crain. Com William Marshall, Vonetta McGee, Denise Nicholas, Thalmus Rasulala. Colecionadores de antiguidades compram ítens do castelo Drácula, entre os quais está o caixão de Mamuwalde (William Marshall), um príncipe africano amaldiçoado pelo famoso vampiro. A urna é levada para Los Angeles, onde ele despertará do seu sono de 150 anos para se alimentar e onde conhecerá Tina (Vonetta McGee), a reencarnação de sua mulher. Blácula passa, então, a fazer de tudo para conquistá-la e acaba ganhando um inimigo: Dr. Gordon (Thalmus Rasulala), que passa a caçá-lo implacavelmente.

Peguei esse filme na idéia de assistir a um terror blaxploitation, mas é difícil chamá-lo de terror. Esse é um daqueles que poderia passar fácil no antigo Cine Trash - se é que não passou. O fato é que não existem suspense nem sustos, a atuação é fraca, os efeitos são toscos e a maquiagem é risível. A história abusa de elipses que deixam grandes buracos e interrogações. Até pensei que poderia aproveitar para rir, mas depois de um tempo ficou ruim demais até pra isso.

Bicentenário de Edgar Allan Poe

Foto de Edgar Allan Poe
Hoje comemora-se o bicentenário de Edgar Allan Poe (19/01/1809 — 07/10/1849), um de meus escritores favoritos.

Porque não me acompanha até as adegas, para que possamos pegar uma barril de Amontillado e beber em sua homenagem? Só tome cuidado para não tropeçar nesse maldito gato preto.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Thomas Mann: "Morte em Veneza"

Aschenbach observa Tadzio e sua família

"Não estava escrito que o sol desvia nossa atenção do intelectual para o sensível? Que ele entorpece e enfeitiça a razão e a memória de tal modo que a alma, entregue ao prazer, esquece inteiramente sua verdadeira condição e se apega surpresa e maravilhada ao mais belo dos objetos iluminados por ele?"

Aproveitei que passaria um dia de folga em casa esta semana para ler algo. Como queria acabar rápido, preferi pegar um livro curto. Dei uma vasculhada na estante e "Morte em Veneza", do alemão Thomas Mann, me pareceu adequado.

Na história, Gustave Aschenbach, um famoso autor alemão, decide passar as férias de verão em Veneza. Lá, apaixona-se por Tadzio, um adolescente de 14 anos visto por ele como a representação perfeita da beleza e da inocência. A paixão vai lentamente dissolvendo a racionalidade de Aschenbach, que via no jovem a encarnação do sentido de beleza que ele buscara na arte.

O enredo é simples e sem grandes supresas, até porque esse não é o objetivo do livro, que foca nas reflexões do personagem principal. Elas são longas, intrincadas, cheias de referências aos mitos gregos e abertas a muitas interpretações. Ou seja, o meu plano de ler algo rápido foi por água abaixo.

Essa é uma obra densa, mas muito bem estruturada. A forma como Mann usa os comentários sobre as obras de Aschenbach no segundo capítulo, por exemplo, nos faz ter acesso a certos aspectos da pisque do personagem que servirão de subsídios para contextualizar suas reflexões nos capítulos seguintes.

A despeito de discussões sobre Aschenbach ser homossexual, pedófilo - basta atentar para as alegorias colocadas no texto para ter uma noção disso -, ou estar unicamente encantando e absorto pela beleza do jovem polonês, o que me chamou a atenção foi o efeito que ele acaba tendo sobre o artista.

O personagem, que sempre prezara pela disciplina, de repente começa a mudar de tal maneira que só pode ser explicada por uma de suas reflexões, quando diz que "a paixão paralisa o senso crítico e deixa-se envolver a sério em encantos que a sobriedade aceitaria humoristicamente ou rejeitaria com irritação."

No fim das contas, "Morte em Veneza" é um livro sobre os estranhos caminhos que os verdadeiros artistas trilham em busca da perfeição; sobre como uma obsessão pode transformar suas vítimas naquilo que mais odeiam; e sobre como o encantamento por uma pessoa pode ofuscar o discernimento e afetar o julgamento de um indivíduo.

Sem dúvidas, um livro lido em boa hora.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Xico Sá: "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea"

Semana passada terminei de ler "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea", do Xico Sá. Me deparei com o título por acaso e, apesar de não conhecê-lo, reconheci o nome do autor, por sua produção de crônicas - gênero que gosto bastante. Foi suficiente para me convencer a comprá-lo.

O resultado foram ótimas risadas e caronas nas reflexões abalizadas nas vivências e andanças do autor, discorridas em um nordestinês que me é tão caro, mas que só consigo obter na fonte alguns poucos dias no ano, quando visito minha família na Paraíba.

De uma forma geral, pode-se dizer que esse é um livro que trata dos temas mais pertinentes aos machos: bebida, comida, tecnologia, metafísica de boteco, literatura, cinema e mulher.

A gradação acima é minha, mas os temas estão todos lá. Aproveitei para conferir!

Camisa vermelha: Ricardo Montalbán

Ricardo Montalbán como Khan Noonien Singh
O eterno Khan do universo de Star Trek, Ricardo Montalbán, vestiu a camisa vermelha na manhã de hoje.

Prestemos nossas homenagens de pulmões cheios: KHAAAAAAAAAAAAAAN!!!

Filmes da semana (04 a 10/01/2009)

Menina má.com (Hard Candy, 2005) - 4/5
Dirigido por David Slade. Com Patrick Wilson, Ellen Page, Sandra Oh. Garota de 14 anos (Ellen Page) conhece um encantador fotógrafo de 32 anos (Patrick Wilson) em uma sala de bate-papo na internet. Suspeitando que ele seja um pedófilo, cria um plano para expô-lo.

Eu olhava pra capa desse filme na locadora e sempre imaginei um trashzão. Como tava passando na TV e lembrei que era com a Ellen Page, de "Juno", resolvi assistir. E é muito bom! A garota já mandava muito bem na atuação desde essa época. A história é simples, mas a interpretação e o desenrolar levam a um clima de tensão crescente que deixa o sujeito segurando a respiração em alguns momentos.


A fúria (He Was a Quiet Man, 2007) - 3/5
Dirigido por Frank A. Cappello. Com Christian Slater, John Gulager, Elisha Cuthbert. Um trabalhador (Christian Slater) humilhado pelos colegas e pelo chefe planeja diariamente matar os colegas de trabalho. Até o dia em que outro realiza o sonho e ele o mata, virando o herói. A única sobrevivente (Elisha Cuthbert) fica tetraplégica e eles iniciam um relacionamento.

O que começou lembrando "Um dia de fúria", passa por "Como enlouquecer seu chefe", muda de direção e até parece que vai terminar bem, mas deixa a peteca cair.


Rede de intrigas (Network, 1976) - 5/5
Dirigido por Sidney Lumet. Com Faye Dunaway, William Holden, Peter Finch, Robert Duvall. Depois de anos no ar, um âncora de um telejornal (Peter Finch) é demitido devido aos baixos índices de audiência. No mesmo dia ele anuncia ao vivo que se matará em frente às câmeras em uma semana. A partir daí o que se vê é como uma ambiciosa produtora (Faye Dunaway) e um inescrupuloso executivo (Robert Duvall) tiram proveito do desequilíbrio dele para recuperar audiência e sair do buraco.

Esse entra pra galeria "Porque não assisti isso antes?!". É um prato cheio pra qualquer um que gosta de saber como são os bastidores das redes de TV, como a batalha pela audiência passa por cima de qualquer limite ético e como o poder econômico influencia as notícias. Um filme excelente, com ótimos monólogos e interpretações.


Epitáfio (Gidam, 2007) - 3/5
Dirigido por Jeong Beom-sik e Jeong Sik. Com Kong Ho-Seok, Choi Jae-Hwan, Mu-song Jeon. Em Outubro de 1979, o Hospital Anseong está prestes a ser demolido. O Dr. Park Jeong-nam revê um álbum de fotografias resgatado do edifício e as imagens reavivam-lhe memórias do passado, transportando-o a quatro estranhos dias de Fevereiro de 1942, quando era estagiário naquele hospital. Sobrepõem-se três histórias: a do cadáver de uma jovem que se suicidou; a de uma garota traumatizada, única sobrevivente de um acidente que vitimou toda a família; e a última, sobre um casal de cirurgiões.

Na minha corrente gana por conhecer mais o cinema da Coréia do Sul - acredite, é ótimo! - me deparei com esse título. No fim das contas, é mais um filme de fantasmas orientais. A grande sacada aqui é a não-linearidade do roteiro e um plot twist em uma das histórias.


O bom, o mau e o bizarro (Joheunnom nabbeunnom isanghannom, 2008) - 4/5
Dirigido por Ji-woon Kim. Com Kang-ho Song, Byung-hun Lee, Woo-sung Jung. Em 1930 a Manchúria era uma terra de ninguém. No deserto cortado por trens a vapor e repleto de armas e ópio, reinava a lei do mais forte. Tae-goo, ladrão de trens profissional, descobre em um de seus assaltos um mapa do tesouro destinado a um alto dignatário japonês. Chang-yi, assassino líder de um grupo de bandidos, é pago para recuperar o mapa. Por fim, Do-won, caçador de recompensas, está disposto a pegar o mapa pra si. Neste jogo de gato e rato com estilo de western oriental, surgem ainda o exército japonês e os bandidos coreanos.

Não é uma refilmagem do clássico do Sérgio Leone, mas uma versão coreana que homenageia a cinematografia do mestre. Quem gosta de sua obra vai ficar feliz em achar aqui várias referências. Contudo, os três personagens - que quase nada lembram os de Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach - já mostram logo de cara que o que se está pra ver é diferente do homenageado: um caçador de bandidos (o bom), um bandido cruel (o mal) e um ladrão muito atrapalhado (o bizarro). O filme é divertido, apesar de algumas quebras de ritmo. Recomendo para fãs do cinema oriental ou de faroestes.

Aliás, depois de ver faroeste americano, italiano, espanhol, russo e japonês, agora adicionei coreano à lista.


Shiri - Atentado terrorista (Swiri, 1999) - 3/5
Dirigido por Je-gyu Kang. Com Suk-kyu Han, Min-sik Choi, Yunjin Kim, Kang-ho Song, Johnny Kim. O grupo 8 das Forças Especiais norte-coreanas rouba o carregamento de um poderoso explosivo líquido de militares sul-coreanos com o objetivo de atrapalhar as negociações de paz na península. Dois agentes especiais da Coréia do Sul ficam encarregados de resolver o caso. Contudo, ao que tudo indica, há um espião na agência.

O filme não é excelente, mas também não decepciona. Tem uma trama que se dsenrola bem, atuações competentes e alguns tiroteios empolgantes - apesar da câmera trêmula incomodar nessas horas.


Vistos novamente:

Rocky, um lutador (Rocky, 1976) - 4/5
Dirigido por John G. Avildsen. Com Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young. Rocky (Sylvester Stallone) é um boxeador da Filadélfia que nunca teve chance no esporte e se vê obrigado a exercer um trabalho paralelo como cobrador de um agiota. Sua vida é transformada quando recebe do campeão peso-pesado Apollo (Carl Weathers) a oportunidade de disputar o título máximo do boxe.

Não estava nos meus planos assisti-lo, mas vi que ia passar na TV e resolvi rever. Sem dúvida, é um clássico. Stallone - que também é o roteirista - está inigualável no papel que, ao lado de Rambo, o imortalizou. A história é de superação, de um sujeito lutando contra todas as expectativas e encarando o desafio como a grande e única chance de mudar sua vida transmite muito o sentimento de "vencedor" que tantos se vê nos filmes estadunidenses, quando o boxeador "perdedor" consegue se equiparar ao campeão. Apesar disso, não recai em maniqueísmo e aquele estereótipos dos filmes de colégio ou escritório.


Passageiro 57 (Passenger 57, 1992) - 3/5
Dirigido por Kevin Hooks. Com Wesley Snipes, Bruce Payne, Tom Sizemore. Capturado após longa caçada, famoso terrorista Charles Rane (Bruce Payne) tenta nova fuga durante vôo em que está sendo transportado, mas não faz idéia de que ali também está John Cutter (Wesley Snipes), especialista em segurança aérea, que fará de tudo para impedi-lo.

Esse filme é um clássico absoluto da era de ouro das locadoras. É um daqueles que todo mundo pegou o VHS pra assistir. O roteiro é raso, a produção não é lá essas coisas e a atuação nem comento, mas e daí? O negócio aqui é sentar no sofá e ver (novamente!) o herói salvar o dia.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Joe Sacco: guerra e jornalismo em quadrinhos

Foto de Joe Sacco
A situação no Oriente Médio me fez dar uma remexida na estante em busca de duas graphic novels que li há alguns anos: "Palestina - Uma nação ocupada" e "Palestina - Na Faixa de Gaza", ambas de Joe Sacco, um repórter e quadrinista maltês criado na Austrália e graduado em jornalismo nos EUA, pela Universidade do Oregon.

Conheci o trabalho de Sacco lá pelos idos de 2002, enquanto pesquisava material relativo aos conflitos nos Bálcãs, originários do esfacelamento da antiga Iugoslávia - "um país europeu onde muitos tiveram que se agüentar para a felicidade de poucos", como bem define a Desciclopédia. A obra, "Área de Segurança Gorazde", retrata histórias de pessoas que estavam em meio à Guerra na Bósnia (1992 a 1995).

O autor une sua atividade como jornalista à sua habilidade como desenhista para registrar a realidade das vítimas de um conflito que resultaria no maior genocídio europeu pós-Holocausto, em Srebrenica. Este trabalho originou uma obra real, cruel e emocionante.

Sua auto-ironia característica, tanto nas palavras quanto no traço de si mesmo, serve como alívio cômico em meio a todo aquele caos e histórias chocantes que, não raro, marejam a vista do leitor.

Gorazde foi um cenário ímpar no teatro daquela guerra. Sua localização, na parte oriental do país, era exatamente onde os sérvios (cristãos ortodoxos) promoviam uma limpeza étnica contra os bósnios (muçulmanos). Assim como Srebrenica, transformou-se em um enclave, uma área de segurança da ONU, mas, ao contrário daquela cidade, acabou sobrevivendo aos ataques.

Sacco esteve na região quatro vezes entre 1995 e 1996, entrevistando, anotando e fotografando as histórias e pessoas que fariam parte da obra. Mas, antes disso, em 1991 e 1992, ele esteve dentro de outro barril de pólvora: Palestina. Essa viagem originou as duas graphic novels que citei no início do post.

Família palestina em cena da obra de Joe SaccoNesses livros-reportagem conhecemos a história de pessoas cujas vidas foram profundamente afetadas pela ocupação do seu território, tendo sido expulsas de suas terras e entregues ao descaso e à agonia de ver familiares mortos ou presos sem explicação.

O sentimento de opressão vivido por aquele povo é uma constante na obra. De certa forma, o autor nos permite entender o contexto que levou ao levante palestino contra Israel - que ficou conhecido como a Primeira Intifada.

É interessante lembrar que o primeiro volume foi lançado no Brasil em 2001 e o segundo, em 2003. Ambos no calor da Segunda Intifada, que dura até hoje.

No fim das contas, a época em que as histórias foram registradas, aquela em que foram lançadas aqui e a atual não diferem muito. A desproporcionalidade de força usada pelos dois lados ainda é explícita - seja nas pedras atiradas contra os tanques naquela época, ou hoje, nos ataques aéreos que destroem quarteirões e matam militantes e civis indiscriminadamente para responder aos mísseis Qassam.

Além desses trabalhos, outros foram publicados no Brasil, sempre pela Conrad: "Uma história de Sarajevo", que mostra seu retorno à cidade após a queda de Milosevic e usa as histórias de um ex-combatente como fio condutor, e "Derrotista", que não foca em um tema específico, mas perpassa histórias cômicas pessoais, relatos de bombardeios da Segunda Guerra feitos por sua mãe e bastidores da cobertura da Guerra do Golfo.

Cena da obra Palestina, de Joe Sacco, com árabes e judeus em mercadoDefinitivamene, Joe Sacco é um dos grandes nomes do jornalismo em quadrinhos e merece ser lido por quem se interessa por qualquer uma dessas áreas ou pelos temas abordados. É uma narrativa diferente daquela a que estamos acostumados, com traços bem particulares que cativam o leitor logo de cara.

Para finalizar, sugiro uma leitura na amostra de "Palestina - Uma nação ocupada" disponibilizada no site da editora. São vinte páginas que dão o tom da obra.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A comunicação e o conflito na Faixa de Gaza

Fotógrafos próximos a tanques israelenses
O conflito em Gaza já passa dos dez dias, tendo um saldo de mais de 700 mortos (um terço só de menores de 16 anos) e 2.900 feridos. Os números são altos, mas desproporcionais, uma vez que é nove o número de israelenses mortos até o momento.

No programa do Observatório da Imprensa hoje na Rádio MEC comentou-se sobre como essa questão está causando uma alteração na cobertura do conflito, apesar do esforço israelense para controlar o acesso dos jornalistas e as notícias do conflito através do Diretório Nacional de Informações.

O problema - para o governo - é que o país tem uma Imprensa livre que está achando furos e retalhos na versão oficial. Os jornalistas estão usando seus contatos, pessoas comuns, moradores da Faixa de Gaza como correspondentes, que burlam o isolamento com celulares. E ainda tem a Al-Jazeera, que já estava dentro do território antes do bloqueio.

Pra tentar visualizar essa situação, tento traçar um paralelo com o show do U2 no Brasil, que comentei em um post anterior.

Se em um pequeno espaço de tempo, com um número bem menor de pessoas, a manifestação comunicacional foi tanta, o que esperar de uma zona de guerra em que vivem milhões de pessoas ansiosas por serem ouvidas e que querem mostrar ao mundo seu sofrimento, a fim de que a pressão internacional sobre Israel seja reforçada?

Não deu outra: recorrer à internet para furar o bloqueio.

Os protagonistas dos conflitos do século XXI terão muita dificuldade em trabalhar suas Propagandas com essa enorme pedra no sapato. Melhor assim.

Led Zeppelin - Whole lotta love



Pra começar bem 2009.