segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Um circo de abutres

Sentindo o sangue na garganta,
João olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro e pras câmeras e
A gente da TV que filmava tudo ali

E se lembrou de quando era uma criança
E de tudo o que vivera até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança
"Se a via-crucis virou circo, estou aqui"

Esse trecho de "Faroeste Caboclo", da Legião Urbana, ilustra bem o que tento transmitir com esse post. Espero ter eloquência suficiente para fazê-lo...

Lá pelos idos de 2000 eu assisti a um filme na TV a cabo chamado "A Montanha dos Sete Abutres" ("Ace in the hole" ou "The Big Carnival"), dirigido por Billy Wilder. A trama se passa nos anos 50 e conta a história de um jornalista decadente, interpretado por Kirk Douglas, que vê sua tão aguardada chance de voltar aos grandes jornais quando um mineiro é soterrado sob a montanha do título. Percebendo as notícias que aquele fato poderia gerar, toma as rédeas dos acontecimentos, fazendo daquele caso um grande drama humano e prologando-o desnecessariamente, até um final trágico.

Mineiro soterrado é encontrado por jornalista. Cena do filme 'A Montanha dos Sete Abutres'(Mais detalhes sobre o filme estão disponíveis em uma excelente matéria no Observatório da Imprensa.)

Mais ou menos nessa época, aconteceu o caso do Ônibus 174. Algum tempo depois, houve o sequestro de Patrícia Abravanel e, logo em seguida, do seu pai, Sílvio Santos. Todos os casos foram bastante explorados pela imprensa.

De lá pra cá, o papel da mídia em casos de sequestro sempre foi colocado em discussão, apontado como um complicador do processo, que coloca a vítima em risco, ou como forma de auxílio às investigações, ajudando no resgate. Independente do posicionamento, sempre foi importante compreender que para tudo existe um limite.

Passar certas informações, comunicar o ocorrido, isto é uma coisa. Armar a lona e usar o sequestro como picadeiro e criar um grande circo é outra, porque neste circo, quem está na corda-bamba são as vidas das vítimas.

Isso me leva a outro filme: "O Quarto Poder" ("Mad City"), de 1997, dirigido por Costa-Gravas e baseado no filme anterior, mas com uma história que toma outros contornos.

Neste, Dustin Hoffman é um repórter que, semelhante ao personagem de Kirk Douglas, já foi do primeiro escalão, mas agora se encontra relegado a um emprego no interior. Ele também vê sua grande chance quando um desequilibrado segurança de museu - John Travolha - toma como reféns algumas crianças que visitavam o local, com o intuito de convencer sua chefe a devolver-lhe o emprego.

Jornalista entrevista o segurança. Cena de 'O Quarto Poder'Assim como no outro filme, o jornalista prolonga os acontecimentos além do necessário e promove um circo, atuando como elo entre o sequestrador, polícia e mídia. Paralelamente, cria do criminoso uma imagem de sujeito trabalhador que, desesperado ao ficar sem o emprego, se vê sem saída, senão apelar para aquele ato extremo. Seguindo o primeiro filme, o final também reserva outra tragédia.

Contudo, ao contrário do primeiro, em que as notícias dos acontecimentos não chegavam ao mineiro soterrado, o segurança tem à sua disposição uma TV pela qual pode acompanhar toda a movimentação lá fora, além de entrevistas com seus amigos e com especialistas que discorrem sobre o que estaria acontecendo e o que poderia vir a acontecer com ele.

Citei esses filmes porque na semana passada o país inteiro acompanhou uma história semelhante: o sequestro da estudante Eloá Cristina Pimentel pelo ex-namorado Lindemberg Fernandes Alves.

Quando vi o que acontecia, meu pessimismo já dizia que não terminaria bem. Quando vi o tamanho do circo armado, não tive dúvidas: ele acabaria pegando fogo. Talvez por ter me lembrando dos filmes imediatamente.

Na época do ônibus 174, não lembro de ter visto repercussão muito grande na internet, mas já na época do sequestro do Homem do Baú, ela estava estabelecida como canal de informação - prova disso seriam os acontecimentos do mês seguinte. Mas este caso em Santo André tomou ares de um reality show trans-midiático nefasto e leviano. Uma espécie de amálgama de Big Brother, blog e show de variedades. Ou de horrores.

Cada vez que acessava a página inicial dos portais de notícia, uma nova chamada estava estampada. Em uma espécie de liveblogging do ocorrido, cada movimento em Santo André resultava em uma atualização nas páginas. Várias pessoas atualizavam os navegadores na ânsia por novidades.

Mais assustador ainda era o que acontecia na televisão. Sempre havia um especialista consultado e convidado a especular em prol da audiência sedenta por novidades. O ápice dessa maluquice foram as entrevistas dadas pelo sequestrador aos programas de TV.

Que tipo de imprensa é essa, que abre espaço em nível nacional para conversar com um indivíduo desequilibrado, armado e em posse de duas reféns? Isso só lhe deu mais confiança, a ponto de se declarar "príncipe do gueto".

E assim foi durante um, dois, três, quatro, cinco, seis dias. Até o tão aguardado desfecho do caso: um clímax trágico que em nada fica devendo aos dos filmes citados anteriormente.

Não vou comentar o papel da polícia aqui. Isso seria chover no molhado e assunto para outro post. Mas me incomoda bastante não ver a imprensa fazendo um exame de consciência - ombudsman pra quê?! - e admitir que errou. Nem ao menos cogitar a idéia.

Esconder-se atrás do princípio de que toda informação deve ser divulgada é ignorar o direito das reféns à vida em prol de audiência e da geração de conteúdo que nada mais fazia além de alimentar de abobrinhas as cabeças vazias dos que ficavam estateladas em frente aos televisores e monitores à espera de novidades, como se aquele reality show fosse terminar como um encerramento de novela: com tudo dando certo ou com uma grande reviravolta trágica. E não adiantaria ver a reprise no dia seguinte. Era necessário assistir na hora em que acontecesse.

O problema é que o final trágico aconteceu, a novela acabou e agora o público exige outra. E outras logo virão, porque esses abutres sempre estarão aí, à espreita.

Personagem de Kirk Douglas lendo um jornal, em cena de 'A Montanha dos Sete Abutres'Afinal de contas, como afirma o jornalista do primeiro filme: "A morte de centenas ou milhares de pessoas não tem o mesmo interesse que a morte de uma única pessoa."


Atualização: estava terminando de escrever esse post, quando recebi um e-mail do meu irmão com link para uma entrevista do ex-comandante do BOPE, Rodrigo Pimentel, em que ele classifica a atitude da mídia neste caso de "criminosa e irresponsável". Dois adjetivos bem adequados, sem dúvida.

3 comentários :

Jahnke disse...

Gostei da maneira com que você vai e volta da ficção pra realidade. Ficou bem interessante.

Khristofferson Silveira disse...

Obrigado! :)

Raquel disse...

Fazia uns dias que não passava por aqui. E olha o post que encontrei! Desta vez, o circo está armado lá em casa.