terça-feira, 16 de setembro de 2008

Um tapinha não dói? Tem certeza?

Baseado queimado representando a cadeia de eventos a partir da compra da droga
No início da semana rolou uma discussão offtopic na Wddesign que me trouxe novamente à mente alguns pensamentos antigos de como algumas pessoas simplesmente não conseguem entender como alguns fatos se relacionam, por mais explicitado que isso já tenha sido.

O assunto em questão começou com o desabafo de um colega que perdera um primo, vítima da violência urbana: dois indivíduos tentaram roubar sua moto, mas ele, policial federal, reagiu e foi morto. Como havia visto esse caso na TV antes de ler o e-mail, então o relacionamento foi imediato.

Daí em diante, entre mensagens de conforto e pêsames, teve início uma discussão sobre o papel da maconha no ocorrido.

Embora não tenha lido sobre isso nas notícias, a mensagem enviada deu a entender que estariam sob efeitos da droga, ou que estariam realizando o assalto para poder comprá-la. Daí em diante comentou-se sobre sua influência nos assaltantes, sobre a legalização (ou não), sobre a Holanda e até sobre o seu uso por colegas de profissão.

É sabido que alguns indivíduos que trabalham com criação usam a desculpa de que a maconha relaxa e libera a imaginação, numa espécie de justificativa furada de que os prazos apertados geram muita pressão sobre os criativos, e alguns recorrem ao tapa na pantera pra poder exercer seu ofício.

Protesto pela legalização da maconha
Chegou-se até mesmo a dizer que "nao se pode culpar o objeto do desejo do assaltante pelo roubo. Muita gente que ganha o seu dinheiro honestamente fuma sua maconha, assim como tem um iPod e um tênis bacana."

Mas é quando se chega a esse tipo de sofisma o negócio complica. A partir do momento que se equipara uma droga ilícita a produtos legalizados que pagam impostos e geram empregos formais, como um eletrônico de marca famosa, ou a um calçado, o bagulho virou esculhambação - se me permitem o trocadilho.

Há de se ter uma coisa na cabeça: maconha não é soma, é uma droga não legalizada, tem sim efeitos danosos à saúde, mais que o cigarro, e é porta de entrada para outras drogas. E por mais que o indivíduo ganhe dinheiro honestamente, a partir do momento que ele o usa para comprar uma droga ilícita, a honestidade já ficou de lado.

Se o sujeito planta em casa, para consumo próprio, ele que se entenda com a polícia, mas quando compra de outro, precisa entender que está alimentando um negócio que, embora ilegal, tem por trás de si toda uma cadeia de distribuição.

Por mais eloqüente que eu queira ser, um vídeo servirá muito melhor pra explicar o que quero dizer. E muitos já vão entender só de ver a imagem carregada:



Se você ainda acha que isso é papo furado, é porque sua vida ainda não foi afetada por essa indústria. Aqueles cinqüentinhas que você ganha em meia hora de tabalho e acha que são bem investidos em uma onda, podem muito bem ser aqueles que vão financiar armas e munição para bandidos que assaltarão sua casa.

Faça um favor a você mesmo: leia "Falcão - Meninos do Tráfico" e "Elite da Tropa" e assista "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite". Tente acender um baseado depois.

Ou, melhor: experimente dar um tapa para relaxar depois de um seqüestro relâmpago.

2 comentários :

Daniel disse...

Concordo com algumas coisas. Quase tudo, mas o que também deveria se discutido é até quanto o estado deve me falar o que eu posso ou não usar, e baseado em que. Já que meu corpo é minha casa, e nela eu sou livre pra fazer o que quiser.
Mas no lance do trafico, da compra, e tal, eu concordo.

Khristofferson Silveira disse...

Mas e os custos oriundos dos descuidos com os cuidados dessa casa, serão de quem?

De uma forma ou de outra, o Estado acaba arcando com tratamentos para problemas de saúde que têm como fonte as drogas (lícitas e ilícitas) e comportamentos irresponsáveis dos seus cidadãos (dirigir alcoolizado, por exemplo).

E quando se fala que o Estado está arcando, na verdade é toda a sociedade que está pagando a conta pelo comportamento de alguns poucos.

Isso só para ficar no lado econômico, que é o que, no fim das contas, move o mundo, sem entrar na discussão filosófica/sociológica/legal sobre o papel e poderes do Estado.

Obrigado pelo comentário.