quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A princesa e o sapo

Carol Castro em uma das fotos do ensaioNesta semana um juiz do Rio proibiu o envio para as bancas de novos exemplares da revista Playboy com a polêmica foto da Carol Castro. Em sua decisão, ele afirma que o uso de elementos religiosos nos ensaios "fere sentimentos dos fiéis".

Hoje, um argumento idêntico foi usado pelo Vaticano para solicitar a remoção de uma escultura de um sapo crucificado - que tem em suas mãos uma caneca e um ovo - de um museu italiano.

No primeiro caso, a reação foi causada, óbvio, pela presença do terço em uma revista do segmento pornográfico. E esse rótulo pesa bastante na hora em que debates moralistas falidos insistem em voltar à tona.

O que muita gente talvez não se dê conta é de que aquelas fotografias produzidas são obras criativas, que envolvem os mais variados processos, desde a iluminação, maquiagem, cenário e enquadramento até a própria interpretação da modelo.

No caso específico, como a própria Carol Casto já disse, sua personagem ali é a Dona Flor, de Jorge Amado, da mesma forma que em seus ensaios, Alessandra Negrini interpretou uma prostituta da Lapa e Marisa Orth, uma pin-up. Não por acaso, todas são atrizes.

Sendo um ensaio fotográfico, essa qualidade já seria por si só suficiente para classificar o material produzido de arte. Se levarmos em conta essa condição de "intérprete de um papel" por parte das modelos, aí sim é que ele não pode deixar de ser tratado dessa maneira.

Claro que o pensamento puritano - que muita gente nem lembra que tem - tende a querer desviar qualquer ligação da nossa imagem mental de arte com o daquela retratação de uma pessoa nua numa revista vendida em qualquer banca de esquina. Mas o próprio conceito de pornografia tende a garantir a manutenção dessae conflito, uma vez que ela é "violação ao pudor, ao recato, à reserva, socialmente exigidos em matéria sexual; indecência, libertinagem, imoralidade", adjetivos que raramento são imediatamente associados a arte, mas nem por isso são dissociados.

E é esse o ponto que defendo nessa questão: o que houve no caso da revista foi a censura a uma produção artística por razões religiosas. Algo inaceitável em um Estado dito laico.

O que me leva de volta ao sapo...

Foto da escultura do sapo crucificado
Sua exposição na Itália está sendo criticada pelo papa com o argumento de que "fere os sentimentos religiosos de muitas pessoas que vêem na cruz o símbolo do amor divino".

Museu é local destinado à exposição de material criado com o intuito de instigar o pensamento, atiçar, provocar, chamar para a discussão, não apenas objetos de valor histórico ou arte perfeitinha de sala de jantar - que também tem seu valor, óbvio.

À sua maneira contestadora (tal qual a pornografia o é para o pudor) e satírica, o artista tenta nos transmitir ali sua interpretação particular sobre determinado assunto e a Igreja, por sua vez, ao classificar a obra de "degradante pedaço de lixo" e ao tentar regular o que pode ou não pode ir para um museu baseado em dogmas e visões de mundo particulares, tenta também cercear o acesso das pessoas a outras formas de ver o mundo, como já fez muito no passado e como fazem hoje países como Irã e China.

Esse é um caso em em que o próprio público prova que não há ofensa alguma na publicação, já que ela está indo para uma nova tiragem, significando que há bastante gente que discorda da necessidade de censurar a foto, ou não haveria tantos comprando. Argumento semelhante ao usado por uma juíza da Nova Zelândia, em outro caso de tentativa de censura, desta vez de um evento de topless motorizado.

Independentemente dessa polêmica da foto ser ou não forjada para promoção da revista, o simples fato de a Justiça ter resolvido intervir no conteúdo criativo de uma revista claramente direcionada ao público maior de idade em prol de um segmento da sociedade que se sentiu ofendido com aquilo já é preocupante.

Nenhum comentário :