sexta-feira, 27 de junho de 2008

Epifania

O homem se senta em sua cadeira. Apóia os cotovelos na mesa e leva a cabeça às mãos, que começam a esfregar os olhos e a face. O cansaço é visível para os outros. A frustração, talvez ainda não.

Há horas em frente à tela do computador, pensando, tentando achar uma solução para o problema, um quebra-cabeça cujas peças estão ali, aformes, aguardando que ele descubra uma maneira de encaixá-las. E é exatamente isso que está lhe causando essa fadiga mental.

Depois de muito esfregar os malares, apóia os olhos nas barrigas das mãos, a testa nas palmas e enfia as pontas dos dedos entre os cabelos negros, massageando a fronte e buscando se distanciar um pouco do problema, concentrando-se apenas nesse ato relaxante.

Aos poucos a vista passa do um cinza avermelhado das pálpebras fechadas a um negro total; o ruído do trânsito dois andares abaixo vai ficando cada vez mais distante e a celeuma do resto do escritório vai se dissipando, até não haver mais som algum.

E ele permanece ali, naquele limbo desprovido de luz, som ou qualquer outro estímulo externo que possa perturbar sua situação: uma caixa fechada no espaço, contendo um indivíduo concentrado apenas no movimento das pontas dos dedos e em sua respiração.

Aos poucos todos aqueles problemas, prazos, pressões, idéias, referências e outros elementos que ele traz consigo para o exercício da profissão, tudo aquilo que o caótico e solitário brainstorm agitou e misturou vão, enfim, se decantando em seu cérebro, cada qual em sua camada, começando um processo de separação e classificação tão rápido que o homem nem consegue perceber.

É como se as peças daquele quebra-cabeça etéreo fossem tomando forma, se separando, girando e buscando se encaixar; como se uma luz surgisse em um orifício naquela caixa e o conduzisse para fora, desencaixotando-o e revelando-lhe o universo de combinações que levariam à conclusão do quebra-cabeça. Enfim, era alvo de uma epifania!

Um furor criativo toma conta de seu cérebro, que parece ter despertado de um torpor diretamente para a regência da Nona Sinfonia de Beethoven a convite de um desfibrilador, paralelo a um sentimento de serendipidade e iluminação, que toma conta de sua consciência e que, juntos, começam a dar contornos às peças que vão se juntando e formando um solução para aquele enigma.

E quando se prepara para aplicar os últimos detalhes em sua panacéia criativa, as peças evaporam da sua mente e um vórtice o suga de volta para aquela mesma mesa onde começara sua jornada. Ergue a cabeça, abre os olhos, mas não consegue entender o que vê, pois a vista está embaçada.

De súbito toma consciência de que fora desperdado por um colega que, vendo o homem naquela situação, não hesitou em lhe aplicar um pescotapa e ainda dizer: "Ô, seu publicitário, acorda aí! Qual é? Se continuar dormindo no meio do serviço essa campanha não vai sair nunca! Pára de enrolar e vai trabalhar!"

Do alto de sua nova frustração de ter visto a solução lhe escorrer por entre os dedos, que é maior do que todos os egos de seus colegas de profissão multiplicados, ele não hesita em vociferar: "Filho da puta!"

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