terça-feira, 15 de abril de 2008

Celular expulso das salas de aula

Alunas cochichando em sala de aula
Esta semana o governador Sérgio Cabral sancionou uma lei estadual, de autoria do deputado João Pedro Figueira, que, segundo o próprio, "é para impedir que o telefone seja utilizado em sala de aula, durante o horário escolar, e visa garantir que o aluno fique 100% atento a aula. Escola é lugar para estudar".

A minha primeira reação a essa história foi pensar se o Rio de Janeiro, um Estado com tão poucos problemas, realmente precisa legislar sobre isso, mas, ei!, estamos falando de educação! Pensem nas criancinhas!!!

Lendo depoimentos de educadores sobre a lei, com maioria dizendo não concordar com a existência do problema, me deparo com as palavras de uma diretora de escola, afirmando que “o uso realmente atrapalha. Essa evolução da sociedade é um problema. O celular, hoje em dia, faz parte do corpo dos alunos, que não conseguem mais ficar sem."

Depois disso, pensei mais ainda e não entendi porque essa evolução seria um problema pra uma pessoa que tem como profissão educar os futuros protagonistas dessa sociedade, que farão uso dos seus avanços e até mesmo gerarão novos. E aí as sinapses resolvem trabalhar e me lembro que recentemente o TSE restringiu o uso de internet na campanha eleitoral, afirmando estar prezando pela igualdade de condições para os candidatos, demostrando total desconhecimento da realidade do meio.

A princípio podem não parecer situações ligadas, mas ambas recaem naquela história de que tememos aquilo que não conhecemos e, opa!, não é que medo pode ser uma boa explicação pra isso? Medo de estar ficando para trás, de se sentir ultrapassado, de não ser mais o detentor do conhecimento e não ser capaz de acompanhar e entender aquilo que os seus alunos ou cidadãos estão fazendo, de tentar compreender que novos comportamentos são aqueles que surgem com as tecnologias e que novas formas de se organizar em sociedade elas trazem e, consequentemente, que novas formas de se regulamentação sem castração elas exigem.

Quando o assunto são as novas tecnologias, as leis e regulamentações que limitam, restringem ou proíbem são o caminho mais rápido e fácil para a afirmação de que há sim legislação para aquilo, embora os danos dessa atitude provavelmente só serão vistos mais à frente.

Ao invés disso, não seria melhor descer do pedestal - ou do tablado - e procurar entender o que está acontecendo?

Aluna utilizando o celular escondida em sala de aula
As relações educativas não são mais de sentido único, com conhecimento escorrendo pirâmide abaixo, dos poucos que sabem mais, para a massa que sabe menos. As coisas ficaram diferentes, mais interessantes e dinâmicas. As próprias palavras do educador Paulo Freire podem ser usadas nesse contexto, quando afirma que "ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo."

Eu fui, durante muitos anos, aluno e funcionário de escolas salesianas. Lá existe um método educativo idealizado pelo fundador da congregação, Dom Bosco, que, apesar das questões religiosas das quais discordo, merece meu respeito por já ter vivido e comprovado a eficácia desse sistema em ação.

Para ele, os educadores precisam estar "sensíveis às necessidades dos tempos e lugares" e devem estar a serviço dos jovens, não dominando-os, o que contrasta com a realidade observada por Freire, quando este afirma que "o autoritarismo é uma das características centrais da educação no Brasil, do primeiro grau à universidade."

Para nossa felicidade há ainda aqueles educadores que nos dão uma ponta de esperança quando afirmam coisas como: “Acho que para proibir o celular na escola tem que proibir no teatro, no cinema, no carro, dentro do avião e demais lugares. O papel do professor é educar e quando a gente proíbe o uso de celular em sala de aula a gente está educando o aluno a não usar o aparelho em outros lugares. Não precisa de lei nenhuma proibindo nada. Vou fazer o quê? Prender o aluno? O aluno já sabe que não pode. Tem tantas leis mais importantes. Por que não faz uma lei para dar mais verbas para o ensino publico?”

Pois é... Porque não?

As tecnologias não devem ser expulsas dos ambientes educativos. Pelo contrário, devem ser convidadas a entrar pela porta da frente, fazer parte do processo ensino-aprendizagem como mais um mecanismo que o facilite, ferramenta dos educadores e de socialização entre os alunos.

Acha isso muito viajante ou utópico? Eu não.

5 comentários :

SauloB disse...

boa Khris, gostei.

Vamos lá, criar leis super interessantes como essa. hhaha!

Israel disse...

É... Parece mais umas daquelas leis para demonstrar publicamente "preocupação" pela educação... Sem de fato melhorá-la... Ou seja, política.

De forma nenhuma o celular atrapalha o ensino... O próprio ensino brasileiro é todo atrapalhado... Culpar o celular por isso é chamar todos de burros, o que é normal por aqui por sinal...
O aluno que utiliza o celular indevidamente apesar das recomendações (veja bem a palavra: recomendações) do professor, irá arcar com as conseqüências invariavelmente.


Momento piada (não consigo ser sério por muitos parágrafos):

"sensíveis às necessidades dos tempos e lugares"

Isso foi uma mensagem disfarçada para a Igreja Católica ?
KKKKKKKKK

Khristofferson Silveira disse...

Hahaha, não, não, essas são palavras de Dom Bosco mesmo.

Mas admito que são um pouco contraditórias, já que a Igreja é um fenômeno anacrônico com poucos equivalentes.

Thiago Maya disse...

Isso ai Cara, adorei seu blog,suas opiniões, Sou estudante de Licenciatura em Infoemática, me formo o ano que vem, e vi muito conteudo bom no seu blog, poderiamos trocar bastante informações ja que meu tema de TCC é Professor Himpermidia, ok
abraços ai

Khristofferson Silveira disse...

Obrigado pela visita, Thiago. Fique à vontade para aparecer mais vezes e comentar.

Sucesso aí com o TCC.