quarta-feira, 26 de março de 2008

Vá e venda, digo, vença!

"Who are you?"
"The new number two."
"Who is number one?"
"You are number six."
"I am not a number, I am a free man."
"HAHAHAHAHA!!!"
- "The Prisioner"


Não é de hoje que as empresas buscam formas cada vez mais inusitadas de motivar seus funcionários a produzir cada vez mais. Dinâmicas de grupo, shows de mágica, hipnose, técnicas de judô, acampamentos e até Sun Tzu adaptados ao mundo corporativo já existe. Só que a bola da vez é usar as filosofias do BOPE nas empresas.

Na Revista da Folha deste domingo saiu uma excelente reportagem sobre essas palestras que são mais um subproduto que veio no vácuo do filme "Tropa de Elite".

Segundo a matéria "Caveira Motivacional", de Maeli Prado, as terminologias e expressões do batalhão são transpostas para os treinamentos, onde pode-se ouvir o palestrante falando "e quem não está satisfeito..." e a platéia respondendo "pede pra sair!".

O ex-capitão do BOPE e palestrante afirma que "o conceito de superação de limites e de encarar as adversidades com naturalidade pode ser aplicado à iniciativa privada."


Até aí, vá lá. Em um nível de analogia, muita coisa acaba passando sem questionamentos, inclusive essa história de equiparar o cotidiano de uma unidade militar ao de uma empresa. Um executivo até diz que "Ele [o palestrante] é alguém que fala de liderança, de trabalho em equipe, e fala do batalhão de uma forma alegórica. Buscamos, o tempo todo, que não haja uma associação muito direta com o filme."

O problema é quando os clientes que contratam as palestras já se empolgam a ponto de dizer que elas servem para "fazemos uma auto-reflexão, buscando as características do 'caveira' dentro da gente." Ou seja, depois de buscar a mulher interior, o animal interior e o líder interior, agora a gente tem que procurar o caveira interior! Será que uma radiologia serve?

Mas não pára por aí. O nível vai a tal ponto que um diretor comercial chega a afirmar que "na empresa, a gente agora só se chama por número". Aí a luz vermelha acendeu.

Quem leu o livro ou assistiu ao filme sabe que a analogia entre a realidade do BOPE e a das corporações é algo que exige muitas ressalvas.

O treinamento militar é tão desumanizador que os indivíduos acabam não sendo mais identificados por seus nomes, mas por números. Um processo de coisificação que visa forjar homens de guerra que vão cumprir uma missão dispostos até mesmo a morrer no processo.


Usar algo assim em uma empresa, passando a chamar os funcionários por números, é ir de vez em direção a um cenário de filme distópico ("Brazil", talvez?). Uma realidade em que o tal Capitalismo Selvagem seja o predominante.

Longe de mim fazer aqui um discurso de esquerda contra o Capitalismo, mas da mesma forma que o mundo está despertando para o problema ambiental agravado pela insaciável sede de lucros dos atores deste sistema econômico, ele precisa também despertar para o problema da desumanização dos indivíduos inseridos no processo. Ou seja, o mercado precisa encontrar formas de gerar riquezas sem provocar tantos danos colaterais ao planeta e seus habitantes quanto for possível.

Exigir que a empresa lucre 20% a mais este ano do que no anterior, demitindo 30% do pessoal pra segurar despesas é uma coisa. Oferecer benefícios que estimulem os funcionários a buscar produzir cada vez mais e melhor, aumentando o lucro da empresa é outra coisa.

As corporações precisam parar de tentar robotizar seus funcionários e promover a humanização do trabalho, suas dinâmicas e relações, porque é isso que traz o aumento da produtividade, criatividade, sinergia e outros fatores benéficos para ambos os lados.

Quer melhor forma de motivar seus funcionários do que lhes permitir desfrutar de uma boa qualidade de vida? Ainda mais se o fator financeiro também for levado em conta. Sim, porque dinheiro é bom e todo mundo gosta.

Apesar disso tudo, a melhor forma de motivar qualquer indivíduo ainda é fazê-lo acreditar naquilo que ele deve fazer como sendo uma "causa" - algo que transcenda o papo de "vestir a camisa" tão comum nesses tipos de palestras.

Vide o famoso discurso de "Coração Valente" ou mesmo o nível de propagação que os Evangelhos alcançaram., ao custo de martírios - hoje "recompensados" com títulos de santos. Tudo porque os atores envolvidos lutavam por uma causa em que acreditavam com suas vidas.

Mas essa já é uma outra história...

3 comentários :

Israel disse...

Pô... Se já tem gente se chamando por número, imagina as piadas que não devem ocorrer ?

8h por dia de piada pronta do Tropa de Elite ?

"Kill... me... now !!!"
rsrsrsrs

Obs.: Linguajar corporativo hein ? Usou até a palavra "Sinergia"... Só faltou o "Pró-ativo"... HEHEHEHE

Khristofferson Silveira disse...

HAHAHAHA
Eu até queria ter usado mais algumas, só pra ficar bem impertinente, porque esse tema merece.

Charlie disse...

Cool!