quarta-feira, 17 de maio de 2006

Os Gafanhotos

Finalmente terminei de ler "As crônicas marcianas", de Ray Bradbury.

É interessante nesses tempos de Irã enriquecendo urânio e de tecnologia avançando ferozmente ler um livro que foi escrito em meio à paranóia nuclear dos anos 50.

Nessa época ainda se acreditava nos Canais de Marte e, por isso, o livro apresenta esse e outros deliciosos erros científicos, além de previsões apressadas, como a chegada do homem no Planeta Vermelho em 1999 e sua posterior chegada em massa, como uma nuvem de gafanhotos.

Contudo, mais do que um livro de ficção científica, a coleção de contos é um retrato da humanidade estúpida, inconseqüente e desequilibrada.

Particularmente, o conto que mais me chamou atenção foi "Usher II", uma referência a "A queda da casa de Usher" e uma homenagem à obra do mestre Edgar Allan Poe, um de meus escritores favoritos.

Neste conto Bradbury leva para Marte um homem que foge da proibição de livros fantásticos imposta na Terra e ali cria Usher II, uma casa habitada por criaturas saídas dessas histórias. Robôs, obviamente.

Mas as leis estúpidas não tardam em sair do Terceiro Planeta para o Quarto com o objetivo de acabar com a criação do indivíduo, resultando em algumas situações interessantes que não contarei aqui - mas o link no fim do post conta. ;)

Como admirador da obra de Poe e fã de ficção científica, confesso que esse conto marcou.

Ao lê-lo e dias depois se deparar com absurdos como uma notícia que vi semana passada, reforço ainda mais minha crença na liberdade de expressão e no fato de que outros não têm o direito de escolher por mim o que devo ou não ler.

Se você gosta de uma boa ficção científica com direito a doses cavalares de estupidez humana, recomendo "As crônicas marcianas".

P.S. 1: Para saber um pouco mais sobre o "Usher II", eu recomendo o artigo "A ficção desconfiada", de Gustavo Bernardo.

P.S. 2: Esse conto foi embrião para a obra mais famosa de Bradbury, "Fahrenheit 451", que, inclusive, vai virar filme ano que vem. Outra vez.

3 comentários :

Cristiano Dias disse...

Eu achei a idéia desses contos da casa de Usher até legais, por esses motivos que você citou (liberdade de expressão, etc.) Mas não gostei tanto assim da execução. O cara fazendo aquele esquema todo da casa só pra colocar em prática o "prano malígrino" dele... sei lá... Gostei do livro, mas tinha uns contos bem caídos ali no meio.

Khristofferson Silveira disse...

Mas é por isso mesmo que eu gostei desse livro.

Não foi tanto pela forma como foi escrito, mas pelas idéias.

Precisaria ler mais coisas do Bradbury para saber como é, mas nesse livro ele comeu poeira pro Asimov.

Cristiano Dias disse...

Fahrenheit 451 é muito melhor.